O DESAFIO DA SERRA DE CAMPOS E AS DIFICULDADES DO PERCURSO

Passado o sufoco, desafio, superação, raiva, vitória, alegria... enfim, cada pessoa escolhe a palavra que melhor defini o que foi o 10° desafio da Serra de Campos. Independente do representou a competição, todos concordam que foi um circuito seletivo, com subidas difíceis e que exigiu dos atletas muita força e resistência. Porém, apesar da mudança de local às vésperas da competição, foi uma "tragédia" anunciada.
Sem contar os inexperientes que, após a mudança do circuito, buscaram pouquíssimas informações da prova e/o fizeram a inscrição sem ter a mínima noção do que enfrentariam, os demais ciclistas sabiam que outra estratégia deveria ser adotada, já prevendo as dificuldades. A subida do Paiol tem trechos de mais de 25% de inclinação e isso é bastante significativo, inclusive para os atletas profissionais. Menosprezar estes números foi o primeiro erro.
Na chegada conversei com os meus alunos, com atletas profissionais e muitos amadores. Um dos assuntos mais comentados foi a combinação de marchas "mais adequada" para o percurso. Será que uma relação compact era melhor? Será que um cassete de 32 dentes era o suficiente? Será que o melhor seria manter a relação "normal" da bicicleta? São inúmeras perguntas cujas respostas parecem ser simples, mas não são. Alguns dos aspectos que devemos levar em consideração são: a individualidade, o nível de condicionamento físico, a tática, a técnica e a eficiência mecânica.
Respeito a opinião dos atletas amadores e dos profissionais, mas precisamos melhorar o nível das discussões para que o conhecimento teórico e pratico seja muito mais que "Ah veio, aqui tem que pedalar mais travado mesmo. Se o Cavendish viesse pra cá ele teria subido de prato. Não tem essa, se o cara estiver bem sobe de qualquer jeito...". Essa foi parte da conversa que tive com um "atleta profissional".
Um exemplo da individualidade em percursos montanhosos foram as disputas entre Lance Armstrong, com suas pedaladas com alta cadência, e Jan Ullrich, o aposto, um atleta muito forte, porém com um estilo "mais travado". Dois atletas que obtiveram excelentes resultados no cenário mundial do ciclismo de estrada, portanto, a dualidade certo ou errado não é o que eu considero correto para definir o estilo de cada um deles, prefiro analisar o quanto e em quais momentos essas características são virtudes ou defeitos. No desafio da Serra de Campos não basta dizer que subir travado é melhor e que se estiver treinado aguenta... Podemos dizer que quanto mais o ciclista estiver preparado para aquele tipo de desafio melhor será o seu desempenho. Estar treinado não significa estar preparado, pois existe a especificidade. Se o atleta utilizou percursos planos e/ou com poucas subidas em sua preparação não espere o melhor desempenho no dia da competição. Além disso, o nível de condicionamento físico do qual eu me refiro esta associado ao percurso, ao tipo de competição, às características da prova...

Falar em tática no ciclismo de estrada brasileiro, infelizmente, ainda é "percorrer o desconhecido", pois esse aspecto é extremamente menosprezado. A tática esta relacionada às combinações de marchas utilizadas na prova, ao ritmo de prova (intensidade), à maneira como o atleta se preparou, ao condicionamento físico (por exemplo, se estiver destreinado não há porque acelerar logo no início...), à divisão da prova em partes e de acordo com o percurso (por exemplo, acelerar ao final da subida do quilometro 25 porque depois virá um longo trecho de descida...), são vários aspectos. Às vésperas da competição conversei bastante com o atleta Josimar Sacramento, terceiro colocado na elite masculina. Apesar da minha insistência para que mudasse, ele adotou uma tática bem ousada e manteve uma relação 39 x 23... Podia dar errado, mas foi o que mais se aproximou da maneira como ele treinou, ele conhecia o percurso e sabia da sua condição física. A terceira colocação foi um bom resultado, porém, fica a dúvida para os próximos desafios. Será que a eficiência e a economia de movimento poderiam ter sido melhores?
E a técnica??? Também tive o prazer de participar do desafio e ao longo do percurso percebi que realizar treinos técnicos com a bicicleta de ciclismo é algo que também é menosprezado. Flexão acentuada do tronco, exagerado balanço lateral e vertical da cabeça, quadril extremamente projetado para trás durante a pedalada em pé... foram alguns dos aspectos que eu observei ao longo do percurso. Isso não esta relacionado ao estilo do atleta, é simplesmente perda de eficiência motora e gasto de energia.
Considerando que no ciclismo o tipo de energia gerada ou dissipada no pedal é eminentemente mecânica, podemos considerar que uma maior eficiência esta associada a um melhor aproveitamento da energia mecânica. O que torna importantíssimos todos os aspectos citados anteriormente.
No próximo ano tem mais desafio da serra de Campos e se o percurso for o mesmo faça diferente e melhore o desempenho.


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